sábado, 7 de julho de 2012

‘Redes de Serviços Públicos eficientes deveria ser uma preocupação prioritária para os municípios e infelizmente não está sendo’




Eduardo José Bernini, Sócio Diretor e Fundador da Tempo Giusto Consultoria
‘Redes de Serviços Públicos eficientes deveria ser uma preocupação prioritária
para os municípios e infelizmente não está sendo’

Adriano Rehder | 03 de Julho de 2012
Fonte: Entrevistas Metering 2012

Segundo especialista, discussão acerca da implementação do Smart Grid não pode ocorrer alheia à discussão sobre o desenvolvimento das cidades inteligentes do futuro. O Smart Grid deve ser pensado também dentro da esfera pública municipal, em um contexto de planejamento da ocupação física do espaço urbano. ‘’Ter a rede inteligente sem que venha a ser parte integrante da cidade inteligente é como ter elos fracos e fortes se alternando em uma mesma corrente’’.
- No evento Metering de 2012 você palestrará sobre a relação do Smart Grid com
as cidades inteligentes do futuro. Qual a linha mestra da tese ou questionamentos que apresentará à audiência do evento?
O ponto que pretendo abordar diz respeito à importância de serem concebidas políticas urbanas de caráter municipal que apoiem, induzam, incentivem e viabilizem a modernização das redes de serviços públicos urbanos (energia elétrica, telecomunicações, gás, água e saneamento), como uma premissa para que o conceito de redes inteligentes não seja um chavão e sim parte do desejo e da motivação de realizarmos a transição das atuais cidades precariamente ocupadas e pouco sustentáveis, em cidades realmente inteligentes.
- No conceito de Redes Inteligentes, antes do 'inteligente' vem a 'rede'. O Brasil
possui um infraestrtura de distribuição elétrica com a qualidade necessária para
a aplicação das novas TICs para sua automação?
Essa é uma pergunta que comporta duas respostas. Sim, se considerarmos a escala e o tipo de cidade que está sendo selecionada para servir de piloto, de laboratório, paraa implantação de TICs para automação da rede. Não, se considerarmos que a
realidade dos grandes centros urbanos, a começar das capitais, mas englobando, com certeza, as regiões metropolitanas mais adensadas. Essa é realidade brasileira: nosso nível de adensamento urbano e conurbação merece particular atenção. O fato de que estamos atrasados e progredindo muito lentamente na implantação de tecnologias
mais avançadas na automação das redes, de fato, não pode ser a razão pela qual não
venhamos a melhor planejar e remover conjuntamente outros gargalos tão ou mais
importantes. E um deles diz respeito exatamente ao fato, inquestionável, de que sem
uma coordenação mais fina, mais ajustada, ao (re)planejamento das cidades, a
implantação da automação das redes de energia elétrica pode se constituir não em
uma resposta, mas sim em um estágio que terá que ser refeito mais adiante, não
sendo portanto uma resposta sustentável. Isso não significa que não há mérito nas
iniciativas que as concessionárias estão conduzindo de modo próprio. Há mérito, sim,
o problema é que não estão sendo acompanhadas por iniciativas mais ousadas, mais
criativas, talvez mais contemporâneas, por parte do aparelho de estado, seja no nível
federal, estadual, mas principalmente municipal. Redes de Serviços Públicos eficientes
deveria ser uma preocupação prioritária para os municípios e infelizmente não está
sendo.
- Política pública federal para incentivar o desenvolvimento da rede inteligente
é, a seu ver, eficaz? A dimensão do Brasil e as particularidades de cada região, e
até de cada cidade, não requereria um planejamento regional, e até, em certos
casos, municipal, da rede inteligente? Quais atores públicos e da sociedade civil
deveriam estudar e acompanhar o desenvolvimento deste debate?
No âmbito federal, entendo que o foco deveria estar voltado para o apoio e ao
incentivo à pesquisa e o desenvolvimento tecnológico e para políticas industriais que
dêem suporte à manufatura de equipamentos e a integração de sistemas, em bases
competitivas inclusive para transformar o País em plataforma de exportação de
soluções para regiões com as características assemelhadas à brasileira, que são
diferentes daquelas dos países mais desenvolvidos em alguns aspectos. Isso não
significa, de forma nenhuma, abdicar da busca do mais avançado estado da arte.
Resgatando a expressão criada pelo Edmar Bacha no já longínquo ano de 1974 –
“Belíndia” -, o diferencial brasileiro deve estar em desenvolver aplicações não somente
para as “Bélgicas” brasileiras, mas também para as “Índias” brasileiras (embora,
atualmente, nem a Bélgica seja a mesma Bélgica, nem a Índia seja a mesma Índia).
Mas o contraste entre o nível de desenvolvimento de regiões dentro de uma mesma
cidade brasileira continua sendo uma verdade. O que as une é o fato de que o
desenvolvimento e a modernização das redes de serviços públicos urbanos parou no
tempo e no espaço. Razão que torna ainda mais necessário que o tema seja
incorporado ao planejamento não só regional, mas micro-municipal. Isso define, de
forma geral, quais os atores que deveriam estar presente neste debate, a começar das
instâncias que naturalmente interagem no planejamento municipal, tanto públicas
como da sociedade civil.
- O advento das novas tecnologias do universo do Smart Grid possibilitaria fazer
com o setor elétrico o que se fez com o setor das telecomunicações na década
de 90 do século passado? O Smart Grid acabará com o modelo de concessão
necessariamente? O setor elétrico brasileiro poderá se tornar similar ao do
Texas, onde existe mercado livre para qualquer consumidor?
É preciso cuidado com generalizações. Uma equação é a que poderá conduzir (ou
não) a uma maior liberalização do mercado final consumidor de energia elétrica, com
suas implicações estratégicas, comerciais, operacionais e sobretudo empresariais.
Outra equação é a que poderá determinar, através de novas tecnologias, qual o
pacote de serviços que os clientes finais ou usuários poderão vir a acessar ou
demandar. Essa é uma vertente ainda relativamente desconhecida até porque envolve
a fronteira entre o que é fornecido pelas operadoras de telecomunicações (em um
sentido amplo, voz dados e conteúdo) e o que poderá ser fornecido através das redes

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